Corpus Christi e os fundamentos da presença real de Cristo na Eucaristia

Por José Ibiapina

Neste dia de Corpus Christi, na qual os católicos celebram a presença real de Jesus na Eucaristia, é interessante perguntar: quais os fundamentos dessa fé?

Primeiramente, é importante salientar, que a fé na presença real de Jesus nas espécies consagradas (pão e vinho), vem desde os Pais da Igreja (os cristãos primitivos).

É o caso, por exemplo, de Clemente I, que pastoreou a Igreja primitiva de Roma, conviveu com os apóstolos e viveu, aproximadamente, de 35 a 100 D.C. Em carta à Comunidade de Corinto, sustentou: “Talvez digas: Não vejo aparência de sangue. Mas há o sinal. Aprendeste, portanto, que aquilo que recebes é o Corpo de Cristo. O próprio Cristo testemunho-nos que recebemos seu corpo e sangue. Por acaso, devemos duvidar da fidelidade do seu testemunho?”.

Irineu de Lyon, por seu turno, que viveu, aproximadamente, de 130 a 202 D.C., escreveu: “Nele temos a remissão por seu sangue, e a remissão dos pecados. Por sermos seus membros, somos nutridos por meio da matéria criada, RECONHECENDO COMO SEU PRÓPRIO SANGUE O CÁLICE, tirado da natureza criada com o qual fortifica o nosso sangue; e PROCLAMOU SEU CORPO NO PÃO, de onde fortifica nossos corpos. Os nossos corpos, alimentados por esta Eucaristia, ressuscitarão no seu tempo. (Santo Irineu de Lyon. Adversus Hereses, Livro V)”.

Mas a Bíblia, o que diz?

Primeiramente, é preciso saber que memória é toda capacidade de conservar mentalmente informações e dados sobre pessoas, fatos ou circunstâncias. É um testemunho daquilo que aconteceu no passado e não existe no tempo real (memória póstuma) ou daquilo que aconteceu e continua a acontecer na atualidade (memória em movimento). Por exemplo: memória póstuma ocorre quando lembramos de um ente falecido; memória em movimento ocorre quando comemoramos nosso aniversário, lembramos do nascimento que ocorreu no passado, mas continua a se projetar para o futuro, pois estamos vivos.

Para memória póstuma, o grego koiné, idioma originário do Novo Testamento, utiliza a palavra mneuma (μνημόσυνον). Jesus utiliza esse termo em Mt 26, 12-13: “Derramando esse perfume em meu Corpo ela fez em vista da minha sepultura. Em verdade eu vos digo: Em toda parte onde for pregado este Evangelho pelo mundo inteiro, SERÁ CONTADO EM SUA MEMÓRIA O QUE ELA FEZ.” Em grego: “ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ὅπου ἐὰν κηρυχθῇ τὸ εὐαγγέλιον τοῦτο ἐν ὅλῳ τῶ κόσμῳ,λαληθήσεται καὶ ὃ ἐποίησεν αὕτη εἰς μνημόσυνον αὐτῆς”.

Já para a memória em movimento, o grego koiné utiliza anamnésis (ἀνάμνησιν), que implica memorar uma realidade atual daquilo que é real, acessível e palpável, cuja existência independente de sua própria memória. No episódio da ceia Jesus não utiliza mneuma (memória póstuma), mas sim anamnésis (memória em movimento). Consta em São Lucas 22.19 : “Tomou em seguida o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: ISTO É O MEU CORPO, que é dado por vós; fazei isto em MEMÓRIA DE MIM.” Em grego: ““καὶ λαβὼν ἄρτον εὐχαριστήσας ἔκλασεν καὶ ἔδωκεν αὐτοῖς λέγων, τοῦτό ἐστιν τὸσῶμά μου τὸ ὑπὲρ ὑμῶν διδόμενον· τοῦτο ποιεῖτε εἰς τὴν ἐμὴν ἀνάμνησιν“. Ao utilizar anamnésis, o evangelista quer deixar claro que a Santa Ceia não é um fato encerrado, em relação ao qual memoramos apenas simbolicamente, mas sim um fato contínuo, que se projeta no futuro e se renova, quando sacerdotes consagram o pão e o vinho. Tal compreensão revela o cumprimento da profecia contida em Êxodo 29.42: “Este será o holocausto contínuo por vossas gerações, à porta da tenda da congregação, perante o SENHOR, onde vos encontrarei, para falar contigo ali”.

Essa realidade é confirmada pelas falas do próprio Jesus, no capítulo 6 do Evangelho segundo João. A palavra phago (que significa “comer” ou “consumir”) é usada nove vezes no texto original em grego de João 6:23-53, quando Jesus refere-se a Si mesmo como “Pão da Vida” que deveria ser comido. Contudo, após os judeus terem expresso a sua descrença na ideia de que Jesus queria dizer tal coisa, lemos (em João 6:54) que Jesus passou a usar uma palavra ainda mais forte, trogo, que significa mastigar, comer em um sentido literal, utilizada também em Mateus 24:38 e em João 13:18. Consta em João 6, 54-56: “Todo aquele que comer [trogo] a minha carne e beber o meu sangue tem vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida. Aquele que come [trogo] a minha carne e bebe meu sangue permanece em mim, e Eu nele.”

Ao utilizar a palavra trogo, o evangelista quer deixar claro que Jesus fala de comer literalmente, assim como na última ceia disse literalmente “Isto é Meu Corpo”, em vez de “Isto simboliza meu corpo”. Prova disso é que, muitos discípulos não quiseram aceitar as palavras de Jesus, pois eram muito fortes: “Muitos, pois, dos seus discípulos, ouvindo isto, disseram: Duro é este discurso; quem o pode ouvir? Sabendo, pois, Jesus em si mesmo que os seus discípulos murmuravam disto, disse-lhes: Isto escandaliza-vos? (…) Desde então muitos dos seus discípulos tornaram para trás, e já não andavam com ele.” (João 6:60-61, 66). Ora, sempre que Jesus falava por metáforas, posteriormente, esclarecia aos discípulos o que significava a linguagem figurada. Em João 6, Jesus não presta tais esclarecimentos, mesmo que os discípulos o abandonem, pois não havia o que esclarecer: Ele falava literalmente.

Confirmando tal ensinamento, é que São Paulo esclarece que ofensa contra o pão e o vinho da ceia é ofensa contra o corpo e o sangue de Jesus, e não a uma memória passada: “Portanto, qualquer que comer este pão, ou beber o cálice do Senhor indignamente, será CULPADO DO CORPO E DO SANGUE do Senhor.” (I Corintios 11, 27). Ora, para ser réu contra o Corpo e o Sangue, há de haver Corpo e Sangue como realidades num memorial presencial, e não como lembrança em memorial póstumo de um fato já cessado no tempo.

Ademais, comunhão é ato físico entre duas realidades concretas, e não entre duas manifestações intelectuais ou psíquicas. Não podemos comungar com o inexistente, o qual não está no meio de nós. Por isso, quando São Paulo fala da Comunhão do Corpo e Sangue de Cristo, quer dizer que Jesus se faz efetivamente presente na Eucaristia: “O cálice de bênção, que benzemos, não é a COMUNHÃO (ἀνάμνησις) DO SANGUE DE CRISTO? E o pão, que partimos, não é a COMUNHÃO (ἀνάμνησις) DO CORPO DE CRISTO”? (I Coríntios 10, 16).

Por fim, também corroborando nossa argumentação, Jesus é tratado pelos apóstolos como o Cordeiro Pascal da Nova Aliança ou o Cordeiro de Deus (1 Coríntios 5,7 e 1 Jo 1, 29). Ora, na antiga aliança, o cordeiro pascal, figura simbólica que antecipou a vinda de Cristo, era comido pelo povo de Deus, após aspergirem suas casas com o sangue dele (Êxodo 12). Sendo Jesus a nossa páscoa, como disse São Paulo do 1 Coríntios 5,7, nós temos que comê-lo, o que fazemos por meio da Santa Eucaristia, onde Seu corpo torna-se verdadeiramente comida, e seu sangue, verdadeiramente bebida (Jo 6, 54-56).

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