A oração pelos mortos, o Kadish judaico e o pedido de Paulo por Onesíforo

A oração pelos mortos consta no Antigo Testamento, em 2Mc 12:39-45. Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei. Então Macabeus mandou fazer um sacrifício pelos pecados desses soldados, na esperança que poderiam ser perdoados. O sacrifício, conforme relata a própria Escritura, teve como pressuposto a forte crença na Ressurreição.

A oração pelos falecidos foi mantida pelo Judaísmo Rabínico, surgido após a destruição do segundo templo de Jerusalém. É chamada de kadish, e é recitada geralmente por familiares, a fim de facilitar o processo de purificação pelo qual passariam os judeus mortos. Há, nesse ponto, semelhança com o conceito católico de purgatório.

Trazendo a questão agora para o cristianismo, é possível argumentar que Paulo conhecia essa passagem de 2Mc 12, pois em I Cor 15:29 ele traça possível paralelo:

– I Cor 15:29 – “Que farão os que se batizam pelos mortos, se absolutamente os mortos não ressuscitarem?”.

– 2Mc 12,44 – “Se ele não julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles”.

De fato os apóstolos provavelmente utilizavam a Septuaginta, versão grega do antigo testamento, que continha os livros de Macabeus, conforme reconhecido pela SBB, uma das principais editoras evangélicas do país [1]. O autor da carta aos hebreus (11,35), por exemplo, narra o acontecimento citado em 2Mc 7:1-29, onde irmãos judeus são assassinados por não aceitarem a profanação grega.

Parece-nos, inclusive, que o próprio Paulo praticou a oração pelos mortos.

Em 2Tm, São Paulo lembra alguns eventos de suas viagens. Ao final do 1º capítulo, ele fala de Onesíforo, um cristão de Éfeso que ajudou o apóstolo durante a sua passagem pela cidade. O tom da passagem (2Tm 1,16-18) é de quem lembra com carinho um amigo que morreu. O apóstolo encerra o capítulo orando para que Deus tenha misericórdia da casa de Onesíforo e do próprio Onesíforo “naquele Dia”, ou seja, no dia do juízo.

Provavelmente Onesíforo estava morto, já que, no final da mesma carta, Paulo enumera as pessoas para quem Timóteo deveria levar os cumprimentos: “Prisca, Áquila e a família de Onesíforo” (2Tm 4:19). Enquanto os outros são citados pessoalmente, apenas a família de Onesíforo, e não o próprio, é citada. Não parece razoável crer que Onesífero poderia estar vivo mas em outro lugar, já que no versículo seguinte, Paulo enumera expressamente os discípulos que estavam em outras cidades, sem citar Onesíforo como sendo um deles (2Tm, 4:20).

De fato, embora esteja escrito que após a morte vem o Juízo (Hb 9:27), também está escrito que, dentre os salvos, uns passarão “pelo fogo” e outros, não (I Cor 3,11-15). Para os católicos, este fogo que atinge aqueles que são salvos não pode ser o inferno, porque no inferno não há salvos; nem pode ser no paraíso, porque no paraíso não há fogo. Logo, seria um estágio intermediário, onde os salvos que edificaram sobre “madeira, ou com feno, ou com palha” (I Cor 3,12) ainda poderiam se beneficiar da oração dos justos da terra.

Foi o que fez Macabeus em relação aos seus companheiros mortos em batalha. Foi o que provavelmente fez Paulo em relação a Onesíforo. E é o que a Igreja Católica fez desde os primeiros cristãos pós-apóstolos e fará até o final dos tempos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *