Apriginho me acordou às 5 da manhã com o maior discurso já feito em São Paulo do Potengi

Ontem, 15, fui dormir cedo, cansado. Pensei em só acordar por volta das 7:30 de hoje. Inocente, esqueci que hoje era dia 16 de janeiro, e todo dia 16 de janeiro eu só durmo até as 5 da manhã. Esta é a hora que Apriginho me acorda com o maior discurso da história de São Paulo do Potengi.

Hoje, 16, aniversário de falecimento de Monsenhor Expedito, não foi diferente. Às 5 horas em ponto, ele parou o carro de som em frente a casa do meu pai. Desde que o padre morreu, todos os anos neste dia, eles percorrem a cidade com o discurso da inauguração da adutora.

Só que meu pai não é dos mais rápidos a se arrumar. E só começa a se arrumar quando Apriginho chega. Então eu acordo, e escuto todo o discurso. E que discurso.

Padre Expedito dá uma verdadeira aula sobre a história da seca no Brasil, do império à nova república. Fala das medidas tomadas pelo imperador Dom Pedro II para tentar amenizar o problema. Já na era da república, fala dos estudiosos, engenheiros e políticos do século XX que lutaram contra a seca. Fala dos coronéis que se aproveitavam do povo pobre para lucrar política e financeiramente com a famigerada indústria das secas. Fala até do mítico cangaceiro Jesuíno Brilhante, o Robin Hood do sertão.

É um discurso emocionado, visceral, de quem dedicou sua vida e suas forças pelo povo que amava.

Em dado momento, ele explica o motivo pelo qual a Igreja Católica no RN (nesse ponto liderada por ele, embora ele não diga) se envolveu na luta pelas adutoras. Ele recorda que, embora a missão da igreja seja espiritual, nesta missão a preferência sempre será pelos pobres, pois assim era Jesus.

Indiretamente, o padre critica uma visão de cristianismo individualista e “em tese”, ou seja, de muitas palavras e poucos atos. Deus não o havia feito pastor de almas desencarnadas, mas de pessoas, que sofriam com a falta d’água. Sintetiza com a frase de Santo Irineu: “a maior glória de Deus é o homem vivo”.

Pouco depois daquele discurso, ele morreu. Não se beneficiou da adutora pela qual lutou tanto. Mas isso certamente não foi um problema. Quem escuta aquele discurso com atenção, percebe claramente que não era para si mesmo que ele lutava.

No final, mesmo cansado, fiquei feliz por Apriginho ter mais uma vez me acordado às 5 da manhã de um dia 16 de janeiro.

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