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Por Santo Tito
Lá em Natal, onde ainda bato a minha “pelada” com colegas aposentados que já ultrapassaram meio século de vida, cada faixa etária tem um grupo no WhatsApp. Naturalmente que pertenço à última. Aquela em que só se fala em velhice, doença, passeios, carros, jantares, almoços, e coisas dessa natureza. E num desses cumprimentos formais da manhã me deparei com esse depoimento verbal de um filósofo.
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“Hoje eu encontrei Deus. Ele estava sentado num café. Aliás, aquele que eu costumava ir sempre, mas nunca reparei nele. Sempre esteve ali e eu nunca o vi. Ele segurava uma xícara de café com as duas mãos. O vapor subia lento, sabe. Como aquele pensamento que não tem pressa.
Então ele me olhou no fundo dos olhos, como se dissesse:
̶ O que você tem a perguntar?
̶ Respirei e comecei: Porque vida dói tanto se há beleza em tudo?
̶ Ele inclinou a cabeça como quem observa o rio: Porque vocês olham para a dor como inimiga, não como parte do caminho que amadurece ̶ a percepção.
̶ E a alegria?
̶ Não é prêmio, é estado de consciência.
̶ E a saudade?
̶ Ele fechou os olhos por um segundo, como se tivesse sentindo saudade: A saudade é a prova de que algo foi verdadeiro, só sente falta quem amou com presença.
̶ Aí eu perguntei: Mas porque tantas perdas?
̶ Porque a permanência é um mito humano, a vida é movimento disfarçado de forma.
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Olhei para o café e ele ainda fumegava: Então o que é viver bem?
̶ Ele sorriu de um jeito que não oferece respostas fáceis. É perceber o milagre do instante sem o sequestro da expectativa. ̶ Olha aí!
̶ Aí perguntei: Aonde você mora?
̶ Onde você para de correr. Onde você escuta. Onde você sente sem se defender.
Deu um silencio. O mundo seguia seu próprio ritmo. Levantei. Ele já não estava mais ali. Na saída eu esbarrei em um senhor: ̶ Não tem problema meu filho, ele disse. E naquele tom havia algo que ninguém ensina. Caminhei mais. Uma barraca simples, cor, vida, presença, cheias de frutas coloridas, flores. Adiante o riso de uma criança brincando, livre. Naquele momento tudo era real, simplesmente na brincadeira dela. Então eu percebi.
Ele não tinha sumido. Ele tinha se espalhado. Deus no gesto Gentil, na respiração tranquila, no agora, no agora, aqui e agora. À noite, deitado no escuro, fechei os olhos e, sem frase, sem teoria, sem explicação, compreendi. Deus não é figura, é consciência desperta e alegria silenciosa. É a parte de mim que não desiste de sentir. Deus está em nós. Pense nisso.”
