Outubro 2023 – Pastor chamou Nossa Senhora Aparecida de “Satanás fantasiado de azul” em culto

Santo tito – O pastor evangélico Sérgio Fernandes protagonizou um episódio de intolerância religiosa ao atacar verbalmente uma escultura de Nossa Senhora Aparecida. O vilipêndio ocorreu em outubro de 2023, momento em que a religião entra de vez no radar da política. Durante a pregação, Fernandes criticou a Prefeitura de Bastos, interior de São Paulo, por ter instalado a imagem da santa na entrada da cidade e afirmou que Nossa Senhora Aparecida não representava o município. As declarações foram feitas durante um culto na Igreja Vida Nova e transmitidas ao vivo pelas redes sociais.

Esta forma de estremecimento religioso não é coisa nova. Existe desde os tempos das Cruzadas. Mas poucos episódios envolvendo religião e televisão ficaram tão conhecidos no Brasil quanto o chamado “Chute na santa”: o caso do pastor que marcou o Brasil em 1995. Aconteceu em 12 de outubro, justamente no feriado dedicado a Nossa Senhora Aparecida. Na época, o pastor Sérgio Von Helder, ligado à Igreja Universal do Reino de Deus apresentava o programa O Despertar da Fé, exibido pela TV Record. Durante a transmissão, ele fez críticas ao culto católico e questionou a importância atribuída à imagem de Nossa Aparecida. A situação envolvendo Von Helder também teve consequências jurídicas. Em 1997, ele foi condenado a dois anos e dois meses de prisão por discriminação religiosa e vilipêndio de imagem religiosa. O religioso posteriormente deixou a Igreja Universal e passou a atuar nos Estados Unidos.
A intolerância religiosa no Brasil tem uma longa história e continuam a se repetir em diferentes contextos. O caso recente do pastor Sérgio Fernandes, em Bastos (SP), ecoa diretamente o famoso “chute na santa” de 1995, protagonizado por Sérgio Von Helder. Ambos os episódios ocorreram em torno da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que é não apenas um símbolo religioso, mas também cultural e nacional — afinal, ela é considerada padroeira do Brasil.
Paralelos importantes: tanto em 1995 quanto em 2023, os ataques ocorreram próximos ao feriado de 12 de outubro, dia dedicado à santa; Von Helder usou a televisão, enquanto Fernandes utilizou as redes sociais — mostrando como os canais mudaram, mas o impacto público continua; Von Helder foi condenado por vilipêndio religioso; no caso de Fernandes, ainda se discute a repercussão política e legal; em ambos os momentos, religião estava fortemente entrelaçada com disputas de poder e visibilidade pública.
Esses episódios ilustram como a intolerância religiosa não é apenas uma questão de fé, mas também de política e mídia. O “chute na santa” se tornou um marco porque escancarou tensões entre católicos e evangélicos, além de mostrar como líderes religiosos podem usar símbolos para provocar e mobilizar. O caso de 2023 mostra que, quase três décadas depois, a disputa pelo espaço público e pela narrativa religiosa continua viva.
Se pensarmos historicamente, desde as Cruzadas até os conflitos atuais, religião sempre esteve ligada ao poder e à identidade coletiva. No Brasil, a figura de Nossa Senhora Aparecida é um ponto sensível porque une fé popular, tradição cultural e identidade nacional. Por isso ataques à sua imagem repercutem muito além do campo religioso.

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