
Foto: Reprodução ilustrativa
Por Santo Tito
Um dia destes foi um daqueles em que pudemos pôr em prática aquela máxima que fez parte de um dos nossos recentes comentários. A parceria que deve, ou melhor, que deveria existir entre patrões e empregados. Pensando em adquirir adorno para envelopar um presente, fomos à rua a cata do dito. Como não somos adeptos a esse tipo de mimo, não sabíamos como começar a busca. Assim pedimos auxílio à primeira pessoa conhecida que apareceu. Ela prontamente nos indicou um comercio próximo onde, com certeza, encontraríamos o objeto em questão. De imediato nos transportamos para o local indicado, na certeza de que ali estaria o que procurávamos.
Todo satisfeito entramos no recinto. Pela aparência acreditávamos que ali estaria o artefato que necessitávamos. Para que isso fosse possível foi necessário nos esgueirarmos na entrada para desviarmos de duas moças, muito bem aquinhoadas pela natureza, que estavam fotografando. Pela indumentária pareciam serem atendentes. Foi aí que ficamos bastante confusos, pois não notamos movimento algum em nossa direção objetivando o atendimento. Alguma coisa de irreal estava acontecendo, já que a nossa presença não foi percebida e a sessão de fotografia continuava acontecendo. Nos dirigimos até ao fundo do estabelecimento, por sinal muito bem surtido, voltamos passando novamente pela sessão fotográfica que continuava a todo vapor e saímos sem sermos notado.
Foi então que surgiu a primeira ideia. Passamos a acreditar que éramos parte de um projeto criado pela tal da Inteligência Artificial, que dizem ser mais nociva do que o ser humano. Retornamos ao local onde obtivemos a indicação para obter uma resposta. A primeira pergunta que fizemos foi: “Você está me vendo?” E a pessoa, surpresa, assentiu. Foi então que voltamos à realidade. Estávamos nos vendo num imaginário. O interlocutor pensou ser uma troça. Tivemos que explicar estarmos participando de uma situação onde pensávamos estar invisível, pois a nossa presença não foi notada por ninguém. No lugar para onde nos haviam enviado ninguém percebeu que estivemos ali.
Para quem estiver lendo essa misteriosa manifestação escrita pode até acreditar num conto, numa anedota. Mas não. É a mais pura realidade. E o interessante que ali adiante, onde fomos muito bem atendidos pelo próprio dono, passamos por um atendente tão absorto em frente à tela de um celular que nem se movia. O empresário até que tenta seguir a legislação que protege o trabalhador. Mas será que ele dá o retorno esperado e que, no mínimo, faz jus a sua manutenção naquele emprego de onde extrai o sustento da família?
O relato mistura uma experiência cotidiana com uma reflexão quase filosófica sobre invisibilidade social e a relação entre patrões e empregados. A cena em que se entra no comércio e não é notado — enquanto os atendentes estão absorvidos em outra atividade — revela muito sobre como a atenção e o reconhecimento são distribuídos no ambiente de trabalho. É como se a presença do cliente tivesse sido anulada, gerando uma sensação de estar em um “imaginário”. Esse episódio também expõe uma contradição: de um lado, o empresário que tenta cumprir a legislação trabalhista; de outro, funcionários que parecem desconectados da função essencial de atender o cliente. Será que o cumprimento formal da lei garante, de fato, a manutenção do emprego e o sustento da família, se o retorno esperado — o atendimento, a produtividade, o engajamento — não acontece?
