
A cinco dias do segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recorreu novamente ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar impor restrições ao canal de WhatsApp “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG). Em petição apresentada nesta terça-feira (20), o candidato pede uma intervenção sobre a atuação da Meta, responsável pelo aplicativo, e solicita medidas que podem levar à suspensão do canal, utilizado para mobilizar quase 7 milhões de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O pedido foi encaminhado ao presidente do TSE, ministro Nunes Marques, após a Meta informar à Justiça Eleitoral que “o WhatsApp não identificou sinais de comportamento coordenado”. A defesa de Flávio contesta a conclusão e acusa a empresa de não investigar adequadamente as atividades de Janones.
“A Meta não disse quais sinais procurou, quais aplicativos examinou, em que período nem com que resultado”, afirmam os advogados, que pedem ao tribunal uma fiscalização direta sobre a empresa.
A nova iniciativa amplia uma disputa judicial iniciada em 10 de outubro, quando Flávio apresentou o primeiro pedido contra o canal. Desde então, a Justiça Eleitoral analisou o funcionamento da estrutura digital e estabeleceu condições para sua atuação, sem considerar ilícita a mobilização política em si.
A legislação eleitoral permite que apoiadores se organizem para ampliar o alcance de mensagens políticas. A defesa de Flávio, porém, argumenta que Janones teria ultrapassado esse limite ao orientar seguidores a publicar conteúdos simultaneamente, comentar postagens e impulsionar hashtags.
O documento reúne dados de um levantamento apresentado pelos advogados, segundo o qual o canal acumulava 16,8 milhões de encaminhamentos de mensagens. A petição também aponta que 605 das 2.397 publicações analisadas haviam sido apagadas pelo administrador.
Para a defesa, essas exclusões seriam parte de uma estratégia para dificultar a fiscalização. O próprio documento, entretanto, reproduz uma explicação de Janones para a prática: “Sempre que vocês cumprirem uma missão curta, como essa, eu vou deletar pra não poluir aqui”.
Defesa questiona mobilização durante debate da Band
Entre os episódios utilizados para justificar a intervenção está uma mobilização organizada por Janones durante o debate presidencial da Band, no domingo (18).
Na ocasião, o deputado orientou seguidores a pesquisar no Google expressões negativas relacionadas a Flávio Bolsonaro, incluindo “Flávio miliciano”, “Flávio Ana Clara” e “Flávio Comando Vermelho”.
A intenção era aumentar a presença desses termos entre as buscas mais populares, aproveitando o fato de a emissora divulgar os assuntos pesquisados pelos brasileiros durante o debate.
A própria petição reproduz a justificativa apresentada aos seguidores: “Porque assim, essas buscas sobem nos Google Trends, e a Band tá anunciando quais são as principais buscas no Google”.
O episódio foi noticiado pelo Poder360, que registrou crescimento expressivo nas pesquisas. A reportagem, no entanto, destacou que não era possível determinar quantas buscas haviam sido realizadas em consequência direta da convocação.
A defesa também cita orientações para que seguidores publiquem conteúdos simultaneamente no Instagram. Em um áudio reproduzido no processo, Janones explica que a concentração de postagens em determinado horário poderia aumentar a distribuição dos conteúdos pelos algoritmos.
“Isso é uma técnica, confia em mim, eu sei o funcionamento dos algoritmos”, afirmou o deputado.
Os advogados sustentam que essas iniciativas representam uma tentativa de produzir artificialmente sinais de popularidade. A questão jurídica, contudo, não é simplesmente a existência de ações coordenadas, mas se elas foram utilizadas para praticar alguma conduta proibida pela legislação eleitoral.
