Tempos novos

Do Blog: Publicamos abaixo, a Crônica “Tempos novos” de autoria de Vicente Serejo, um dos mais importantes e conceituados jornalistas do nosso tempo no Rio Grande do Norte, publicada originalmente na Coluna Cena Urbana, assinada pelo jornalista, no Jornal Tribuna do Norte, de 24 de maio do corrente ano.

Crônica que merece ser lida nos púlpitos da igrejas, nas escolas, praças, emissoras de rádio, postada nas redes sociais e assim por diante, pela reflexão e pelo alerta que faz a todos nós, a respeito da dura realidade em que estamos vivendo atualmente, nos dando o norte de que o tempo é de resistência a tudo de ruim que está flagelando a humanidade e o nosso querido Brasil.

Vale a pena conferir.

Tempos novos

Vicente Serejo, Jornalista

São tempos novos esses que vivemos, Senhor Redator, se por tão pouco nos tornamos tão distantes uns dos outros. Se inventamos uma nova solidão e se trocamos palavras e, tristemente, na lonjura existencial de uns e outros. Virou um vício conversar através de maquininhas e como é triste saber que o prazer da conversa caiu de moda já faz algum tempo e nem notamos. Já não nos fascinam a presença humana, o calor do abraço, a expressão dos olhos no afago que conforta. 

Estamos sós. Sozinhos. Como se tivéssemos construído nossas vidas só com as pedras dos nossos orgulhos pessoais, se não somos mais que a soma dos afetos e desafetos, lutas e instantes de paz que inventamos. Viver, Senhor Redator, é reinventar-se todos os dias. E depois, perdoe o jeito de dizer, antes sabíamos vencer melhor a dura realidade dos dias e noites, afinal é insuportável o vinagre azedo da realidade, e se o irreal faz da vida, como disse o poeta, uma aventura errante. 

Vivemos hoje o tempo medonho, feito de homens partidos, como advertiu o poeta Carlos Drummond de Andrade. Os que não conseguem esconder, encoberto pela máscara caricata, o jeito ardiloso de negar o verdadeiro rosto. Reconstruímos, a duras penas, uma nova democracia com o rescaldo dos escombros restados de uma impiedosa ditadura, mas, agora, e porque não a fizemos sólida, parece descarnada, desfeita no seu desenho tosco vincado nas paredes da própria história.

Uma democracia que para existir vai gastar, numa única eleição, quase seis bilhões de reais entre aparições e fantasmagorias, engordadas por um orçamento adiposo e secreto, de emendas de relatores e seus destinos escondidos. Uma democracia que hoje impõe um tempo de segredos de tudo quanto deveria ser público, se público deveriam ser todas as decisões, ditas e assinadas, sob o pendão de uma liberdade que hoje, estiolada nos torneios entre poderes, virou uma olimpíada. 

A democracia não é cara e compensa todos sacrifícios. Caro, caríssimo, é ter uma sociedade sem um Legislativo livre e um Judiciário digno. Mas há algo pior, bem pior, com certeza, que seria não tê-los. Os conflitos, quando nada, dão transparência aos atos de uns e de outros, se todos são esteios da sociedade que precisa não ter segredos para ser de todos. Pior, muito pior, é tê-la assim, ao arrepio do olho da Nação quando, prisioneira do Estado, fenece no seu dever de fazer o bem. 

Quanto custa a democracia? Não sei. Ninguém sabe calcular na ponta do lápis. Certamente há sempre de custar bem menos do que as sombras que anoitecem os corredores dos poderes ditos constituídos. Na política, a noite dos segredos é a noite do horror. Nela florescem os privilégios dos poderosos, crescem as ervas daninhas do arbítrio, nascem os espinhos contra a liberdade. E se há perigo na esquina, então é melhor que a vida seja assim, em nome da mais digna resistência. 

Vicente Serejo

serejo@terra.com.br

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