Silvério Alves

Silvério Alves

Para refletir: Monólogo das mãos

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Por Giuseppe Ghiaroni

Para que servem as mãos?

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, exigir, suplicar, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, absorver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever…

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Miraboeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do revolucionário;

Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;

Foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;

Com as mãos Davi agitou a funda que matou Golias;

As mãos dos césares romanos decidiam a morte dos gladiadores vencidos na arena;

Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;

Os antissemitas marcavam as portas dos judeus com as mãos vermelhas como signo da morte!

Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.

A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;

O operário construir e o burguês destruir;

O bom amparar e o justo punir;

O amante acariciar e o ladrão roubar;

O honesto trabalhar e o viciado jogar;

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!

Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!

As mãos fazem os salva-vidas e os canhões, os remédios e os venenos;

Os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.

Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.

Os olhos dos cegos são as mãos.

As mãos na agulheta do submarino leva o homem para o fundo como os peixes;

No volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.

O autor do Homo Rebus lembra-nos que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;

A primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.

Esfregando dois ramos conseguiram-se as chamas.

A mão aberta, acariciando, mostra a bondade, fechada e levantada mostra a força e o poder. Empunha a espada, a pena e a cruz.

Doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.

O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.

O noivo para casar-se pede a mão de sua amada. Jesus abençoava com as mãos. As mães protegem os filhos cobrindo-lhe com as mãos as cabeças inocentes.

Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas dos outros.

Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo são as mãos maternas que seguram o corpo pequenino.

E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração para, são as mãos dos amigos que nos conduzem… E as mãos dos coveiros nos enterram.

Giuseppe Ghiaroni, poeta, jornalista e cronista. O texto faz parte da peça “O vendedor de ilusões” de Oduvaldo Viana Filho, escrito para o ator Procópio Ferreira.

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