Bebês Reborn

Por Santo Tito

Bebês Reborn
Vendo algumas notícias no notebook me deparei com uma para a qual não dei muita importância. Mas depois de assistir a um vídeo no celular fui obrigado a acreditar que:
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi
De mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Panaméricas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Aí a gente pensa que o Caetano Emmanuel Viana Telles Veloso e o Raul Seixas eram malucos quando um criou essa letra e o outro “O dia em que a terra parou”. Não eram não. Agora os congressistas é que são. Foram protocolados na Câmara dos Deputados três PLs (projetos de lei) que tratam sobre “Bebês Reborn” (arte reborn, bonecas feitas à mão para se parecerem com bebês reais, sendo conhecidas pelos seus detalhes hiper-realistas, incluindo pele macia, cabelos colocados fio a fio e olhos de vidro). Eles vão proibir atendimento a bonecos hiper-realistas em instituições de saúde e acolher de forma psicossocial quem desenvolve vínculo afetivo com eles.

O quê que está acontecendo com o mundo? Em que momento a civilização decidiu que fingir que um boneco é ser humano seria normal, aceitável e até terapêutico? A histeria coletiva em torno dos Bebês Reborn é mais do que modismo bizarro. É um sinal explícito de colapso mental. Surto psicótico autorizado, estimulado e transformado em indústria. A febre desses Bebês Reborn é o retrato mais perturbador da falência emocional e espiritual do nosso tempo. Uma geração inteira, órfã de sentido que passou a substituir filhos por bonecos.

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