
Depredaram o retrato do Rapozinha. Porque?! Existem vários porquês. Vamos tecer algumas reflexões bastante ricas e cheias de nuances sobre a política local e o papel de figuras que, por mérito cultural e moral, poderiam representar melhor a comunidade. Iniciando por uma contradição injusta: precisamente por não ter os vícios históricos da política tradicional, padrinhos ou recursos, o candidato da terra acaba sendo visto com desconfiança, quando na verdade deveria ser valorizado. É quase como se a sociedade estivesse condicionada a aceitar apenas quem se encaixa nos moldes clássicos da política — mesmo que esses moldes estejam cheios de falhas.
Outra contradição letal: Com um candidato da terra teríamos acesso a todo o seu histórico, mas se não gostarmos do seu sorriso chegamos ao ponto de rasgar o seu slogan de campanha. No entanto, votamos em qualquer um que se apresente através de um cartaz, sem histórico, sem sabermos de onde veio e a que veio. Sem nunca o termos visto, e com toda a certeza de que jamais o veremos.
Devemos é nos atentar para o ponto mais forte que se levanta, qual seja a necessidade de reconhecer o valor do conhecimento e da cultura como ferramentas de transformação. A política é um “mal necessário”, mas também pode ser um espaço de renovação se houver coragem de apoiar quem realmente tem preparo. O problema é que, ao não permitir que os mais dotados nos representem, muitas vezes o eleitorado se deixa levar por símbolos superficiais — o sorriso, o cartaz, o slogan — em vez de avaliar a trajetória e a capacidade de gestão.
Quando uma comunidade não preserva o amor-próprio coletivo, não valoriza seus próprios talentos, abre espaço para que outros venham colher os frutos: ficamos com a “raspa” enquanto levam o “queijo”. O desafio é quebrar esse estigma e criar uma consciência política que se baseie em discernimento e bom senso. Se pensarmos historicamente, muitas lideranças transformadoras surgiram justamente de pessoas “fora da curva”, que não tinham grandes recursos, mas tinham ideias e coragem. O que falta, talvez, é a comunidade se enxergar como protagonista e não como espectadora.
Entre símbolos superficiais e a falta de valorização dos próprios ícones, nos perdemos no espaço e no tempo ao nos atermos a adjetivos subjetivos que são atribuídos apenas aos aspectos externos da nossa “prata da casa”. Mas o que se advoga é que esse “fora da curva” deveria insistir em disputar espaços políticos, mesmo sem recursos e com a antipatia que lhe foi imputada, imerecidamente, como uma forma de romper paradigmas. O momento é de reforma dos clãs que dominam a política hegemônica do Congresso Nacional, atualmente dono do orçamento nacional, e das câmaras municipais, permitindo a existência de uma renovação dirigida ao desenvolvimento e à moralidade.
Com os últimos acontecimentos que mostram a degeneração das instituições, a aposta deve ser pela concentração em mudança dos objetivos atualmente em voga. Com um único banqueiro fazendo o estrago que fez; um Supremo Tribunal Federal sendo afetado da forma como está sendo; a máfia instalada na Confederação Brasileira de Futebol; o Instituto Nacional de Seguridade Social servindo de cabide aos vorazes caçadores de recursos alheios, devemos nos ater a algo mais concreto do que apenas o sorriso.
