
Coluna “Breve Catequese Católica”
Artigo de João Damasceno*
Dentre todas as mulheres, apenas a Santíssima Virgem obteve o
privilégio de ser, simultaneamente, Mãe e Virgem. Nela, a virgindade não
impediu a fecundidade, e nem a fecundidade destruiu a virgindade.
É
da natureza perfeitíssima do NOSSO SENHOR surgir sem trazer dor, rupturas,
estragos ou destruição, pois como adentrou num cômodo sem derrubar paredes,
assim adentrou ao mundo sem romper as entranhas da sua Mãe Santíssima: “Estando TRANCADAS
AS PORTAS, VEIO JESUS, pôs-se no meio deles” (S João 20, 26).
A revelação evidencia que as figuras de Eva e Maria estão
nitidamente entrelaçadas. A primeira mulher da criação, Eva, era
ainda VIRGEM e IMACULADA quando se deixou entrar em consórcio com a
serpente malévola (Gn 3, 1-5). Entre Eva e a serpente houve amizade, confiança
e cumplicidade, sendo aquela o instrumento da aproximação entre o homem e o
pecado.
Virgindade é a SANTIFICAÇÃO
DO VENTRE, fazendo Deus, do útero de
Eva, o SANTUÁRIO através do qual, por meio dessa mulher e
seu esposo, Ele geraria todos os seus santos e
santas também perfeitos e imaculados, os quais povoariam o paraíso e
o honrariam eternamente: “Deus os
abençoou: “FRUTIFICAI, disse ele, E MULTIPLICAI-VOS, ENCHEI A
TERRA e submetei-a. ” (Gn 1, 28).
Mas do consórcio livre e
consciente entre Eva e a velha serpente, ocorre o efeito reverso, pois ao invés de
gerar os santos e santas de Deus, concebeu por seu ÚTERO, agora
sob o domínio do pecado, a
geração ímpia da qual constituiu-se toda humanidade: “Eis
que NASCI NA CULPA, minha MÃE concebeu-me no pecado. (Salmo 50, 3)”. O
pecado de Eva, que residiu na esperança de ser ela, assim
como seu cônjuge Adão, iguais a
Deus (idolatria), maculou
o SANTUÁRIO que o Criador instituiu em seu ventre materno.
E se o pecado foi um atentado contra o ventre,
contra o ventre seria também a justiça Divina e, assim, contra a serpente e a mulher
fora decretado: “Então, o SENHOR Deus disse à serpente: Porquanto
fizeste isso, maldita serás mais que toda besta e mais que todos os animais do
campo; SOBRE O TEU VENTRE RASTEJARÁS e pó comerás todos os
dias da tua vida.” (Gn 3. 14). “Disse também à
mulher: MULTIPLICAREI OS SOFRIMENTOS DE TEU PARTO; DARÁS À LUZ COM
DORES, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu
domínio.” (Gn 3.16)”
Todavia, se pela DESOBEDIÊNCIA de uma virgem imaculada (Eva),
a serpente proporcionou a queda de Adão e fez introduzir o seu
pecado na humanidade, DEUS, por sua vez, utiliza a OBEDIÊNCIA de uma outra
virgem imaculada (Maria) para introduzir o SALVADOR, o
qual derrotaria todo pecado.
Se pelo útero de Eva (santuário manchado), originou-se uma
humanidade pecadora, o ventre da Santíssima Virgem (o novo santuário
puríssimo) fora RESERVADO apenas e tão somente para gerar uma humanidade
santa, perfeita, redimida e incorrupta através do próprio Verbo Encarnado,
o Nosso Senhor Jesus Cristo. (S. Jo 1.1-7)
“Eis que os filhos são herança do SENHOR, e o FRUTO
DO VENTRE, o seu galardão.” (Salmo 127)
“Ora, apenas Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança
estremeceu no seu seio; e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. E exclamou em
alta voz: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu
ventre.” (Lc 1, 41-42)
Nesse sentido, ensinavam os primeiros cristãos. Santo Irineu
de Lyon (+ 220), por exemplo, dizia: “Como por uma virgem caiu o gênero
humano, assim veio também a salvação por uma outra virgem,1 porque
a desobediência virginal foi compensada em contrapartida por uma obediência
virginal. (Adversus Haereses, 1. III seção
3, ano 130-220).”
Através da Santíssima Virgem, Deus restaura
seu SANTUÁRIO, outrora nodoado da ilicitude de mulher, razão porque
não convinha a Maria gerar filhos de homens, filhos de São José, os quais
trariam a natureza do pecado, regredindo a segunda Virgem à condição de Eva,
como mãe de uma humanidade pecadora. Em outras palavras: seria contraditório,
por parte de Deus, gerar, num mesmo ventre, a humanidade perfeita e, posteriormente,
a humanidade pecadora, regredindo o santuário do SANTO ao santuário do ÍMPIO.
Nesse sentido é a profecia bíblica trazida por Ezequiel, quando
trata do pórtico do santuário construído por mãos humanas, uma figura do Antigo
Testamento que antecipou o pórtico do Santuário pelo qual Deus se
encarnaria, o ventre de Maria. Diz Ezequiel: “Ele reconduziu-me ao PÓRTICO EXTERIOR DO
SANTUÁRIO, que fica fronteiro ao oriente,3 o
qual se achava FECHADO. 2. O SENHOR DISSE-ME: ESTE PÓRTICO FICARÁ FECHADO.
NINGUÉM O ABRIRÁ, NINGUÉM AÍ PASSARÁ, PORQUE O SENHOR, DEUS DE ISRAEL, AÍ
PASSOU; ELE PERMANECERÁ FECHADO. 3.O príncipe, entretanto, enquanto tal, poderá
aí assentar-se para tomar sua REFEIÇÃO4 DIANTE
DO SENHOR. ELE ENTRARÁ PELO VESTÍBULO DO PÓRTICO E SAIRÁ5 PELO
MESMO CAMINHO.” (Ez 44. 1-3)
Ora, se DEUS PAI, após ter passado por um pórtico feito por
mãos humanas, o honrou ao ponto de ordenar que permanece FECHADO, por que o
MESMO DEUS agiria diferente em relação ao pórtico do Santuário POR ELE MESMO
EDIFICADO, por meio do qual foi gerada a carne do seu FILHO SANTO E IMACULADO?
O Deus no qual acreditamos não age por meio de contradições. Para
nós, portanto, é mais do que claro que como Deus honrou aquele pórtico do
Santuário da Antiga Aliança, feito de pedras e construído por mãos humanas,
certamente também honrou o pórtico do santuário da Nova e Eterna Aliança, não
mais de pedra, mas de carne, onde foi gerado O CRISTO.
Desse modo, nos termos da profecia de Ezequiel citada acima, o
pórtico de acesso ao Santuário (Ventre de Maria), pelo qual Deus (Espírito
Santo) passou, permaneceu FECHADO (virgindade), pois apenas o Príncipe (Jesus
Cristo) era digno de por lá passar.
*Adaptações feitas por Silvério Filho
Publicação original, sem adaptações, em: https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/07/15/por-que-convinha-cristo-uma-mae-sempre-virgem/

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