
Assim fala Monsenhor Expedito, contando parte da trajetória da sua vida sacerdotal, no livro Pelos Caminhos do Potengi:
“O segundo acontecimento que determinou minha conversão, definitivamente, foi a seca de 1953. Eu e cinco padres fomos com o padre Eugênio visitar o açude público ‘Pataxó’, no meu município natal. Lá chegando pelas 10 horas, vimos um formigueiro humano de cassacos, carregando barro em caminhões e em costas de jumentos. Uma turma nos reconheceu, pois andávamos de batina. Correu ao nosso encontro o líder e foi nos dizendo: ‘Seu vigário, nos tire desta escravidão, pelo amor de Deus!’. Aí, passou a relatar as péssimas condições de trabalho, pagamento em vale do barracão, longe da família; o que levava para a família no fim de semana não dava para três dias!
Quando terminava a seca, alguns espertalhões tinham-se enriquecido às custas da miséria dos desvalidos. Era a amaldiçoada ‘indústria das secas’.
Fizemos nossa reflexão. Deus não quer isso. Precisávamos fazer alguma coisa. Essa alguma coisa foi uma tímida ‘campanha da caridade’ em toda a diocese. Mas uma coisa me ficou no juízo: a frase daquele cassaco: ‘Seu vigário nos tire da escravidão, pelo amor de Deus!’. Vinte anos mais tarde, nossos bispos reunidos na conferência Puebla ouviram isso também, quando disseram :’Um clamor surdo brota de milhões de homens, pedindo a seus pastores uma libertação que não lhes chega de nenhuma parte. O clamor pode ter parecido surdo aquela ocasião. Agora é claro, crescente, impetuoso, e, nalguns casos, ameaçador’ (DP88). “
