Deu no Jornal do WM

Por Woden Madruga


Vou debulhando os ensinamentos de Pedro Simon no seu livro Fé e Política, leitura apropriada para esta passagem de ano novo, no findar de um de travessia que foi penosa, o tumulto e as dúvidas das ruas. Leio e anoto, homenageando Nídia Mesquita, o que pensa o grande politico gaúcho:

– Fé e política não são questões paralelas que se encontram, tão somente, no infinito. Não se deve procurar, nos altares, a remissão dos pecados reiterados e cometidos em gabinetes. Quem sabe estejamos, apesar dos fortes sintomas de caos, vivendo a oportunidade de construir um novo tempo. Ou, mais que isso, um tempo novo, como disse o Papa. Há que reverter as prioridades.

– Reitero: enquanto bilhões, na tangência do trilhão, de dólares se esvaem sob o domínio do medo do “risco sistêmico”, exatamente aqueles que só se contentam com o “ter”, são minguados os recursos para os que desejam, tão somente, ser. Outros bilhões são lançados na forma de mísseis, para dizimar populações inteiras. Rastilhos de morte, e não alimentos para a vida. O poder pelo poder. A muralha da vergonha.

– São Francisco de Assis tinha a desconfiança da sua própria igreja, no seu tempo. Afinal, cada vez mais, ele carreava multidões, em nome de uma Igreja sem ostentações; E a sua Igreja lutava pela posse, pelo ter, pelos bens materiais. Talvez o Papa Francisco tenha que enfrentar, também no seu tempo, a mesma desconfiança da sua Igreja. Não apenas por um discurso menos teológico e mais prático, mas principalmente porque muitas vozes até aqui poderosas na Cúria lutam  por espaços políticos de manutenção do status quo.

– A Política também tem a sua “cúria”. Ou incúria. Também nela existem fortes vozes no sentido da inércia. Daí, a imensa dificuldade de ser, hoje, Franciscano no mundo da política. O “dando que se recebe”, da oração de São Francisco, adquiriu conotação contrária, no sentido da barganha, quase sempre desnudada de qualquer princípio ético.

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