A senhora, a janela e o horizonte

Por Silvério Filho, estudante universitário

Deparei-me, outro dia, com uma senhora a olhar por uma janela. Mais do que com a senhora, percebi-me ante a sua expressão. Parecia uma daquelas fotos em preto e branco, marcantes, tirada, muitas vezes, após uma boa ajeitada no cenário. Entretanto a senhora estava lá, sem ninguém pedir ou aconselhar. 

Na janela, ela contemplava de modo fixo (creio eu) a imensidão do horizonte à sua frente. Na verdade, não sei se era fixo. Não sei nem se ela o contemplava de fato. Se tivesse que descrever com mais minúcias a cena, diria que não sabia se era ela que olhava o horizonte, ou o horizonte que a contemplava, fixa, estática, inerte.

Na face quase que parada no tempo, trazia uma vida um tanto quanto triste. Talvez o marido já lá não estivesse; talvez dos sete a nove filhos, só dois a visitassem frequentemente; talvez a vida batalhadora que levara tivesse corrompido seu sorriso. Mas são só hipóteses. 

Entretanto, aquela expressão distinta me dava apenas uma certeza: a da força daquela senhora. Uma força que vinha das mazelas e das rugas da vida, que eram como cicatrizes expostas que diziam: “sofri e sofro, mas estou aqui, de pé”. 

A senhora vencera. O horizonte, mesmo que incerto, já era ineficaz ante às cicatrizes dela. Sei agora que era ela que o encarava com seus olhos fixos, estáticos, impenetráveis.

Um comentário

  1. Era desconhecida e ao mesmo tempo íntima, hein Silverinho??
    Parabééns, que belo texto!!
    Nos faz estar de pé, se postar a uma janela e contemplar o horizonte =) Ou deixar que nos contemple!!

    Acho que a diferença está na idade, talvez o mais moço não tenha tanto para mostrar aos horizontes, mas sempre há uma oportunidade, ou uma janela!!

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