
Por Silvério Filho
Figura única por essas
bandas, Monsenhor Expedito soube como poucos (pouquíssimos!) compreender as
necessidades e os sofrimentos do homem do campo, inclusive carregando também
para si tais dores.
Em passagem marcante da obra
“Pelos Caminhos do Potengi” (na qual o pároco retrata os seus 50 anos
de sacerdócio), há o relato de uma cena que é responsável pela definitiva
aproximação da sua fé com a realidade do povo. Diz ele: “O segundo
acontecimento que determinou minha conversão, definitivamente, foi a seca de
53. Eu e cinco padres fomos com o padre Eugênio visitar o açude público
‘Pataxó’, no município de Açu. Lá chegando, pelas 10 horas, vimos um
formigueiro humano de cassacos, carregando barro em caminhões e em costas de
jumentos. Uma turma nos reconheceu, pois andávamos de batina, e correu ao nosso
encontro, debaixo de um juazeiro. Um deles, parecendo ser o líder, foi nos
dizendo: ‘Seu vigário, tire nós dessa escravidão, pelo amor de Deus!'” [Pag. 26]
O Monsenhor relata que a
partir desse momento, inevitavelmente, desceu do pedestal do qual ainda falava
e começou a ver o mundo ao seu redor com os olhos do povo. Agindo assim,
tornou-se defensor incondicional dos pobres, em especial dos que viviam no
campo. Instalou escolas radiofônicas, comunidades eclesiais de base, além de
arrecadações entre os paroquianos para ajudar as famílias de sertanejos mais
necessitadas, sendo tal atitude embrião do que posteriormente, com ajuda de Dom
Eugênio de Araújo Sales, viria a se tornar a Campanha da Fraternidade, de nível
nacional.
O padre havia percebido que
para evangelizar de modo efetivo a sua comunidade havia a necessidade de se
falar a língua das pessoas mais humildes, conforme reconheceu Zé Preto, em
trecho do já citado livro: “Um dia, Zé Preto me disse: ‘A gente compreende
tudo o que o senhor ensina, porque o senhor fala na língua da
gente'”. [Pag. 41]
Padre Expedito, que havia
começado sua vida eclesial com a missão de “conciliar os homens entre si e
com Deus”, assumira também uma tarefa política (mas não partidária), em
prol da defesa do seu povo. Tal tarefa reservava ainda o seu maior desafio, a
ser enfrentado na última década de vida, com mais de 70 anos.
A fim de levar às últimas
instâncias a promessa que fizera ao sertanejo do açude de “Pataxó”,
dedicou os últimos anos de sua vida na “Cruzada” por uma adutora que
banhasse com água doce os municípios da Região Potengi.
Em audiência na cidade de
Santa Cruz, no ano de 1993, em que estavam presentes o então Senador Garibaldi
Filho e o Deputado Estadual Elias Fernandes, o Monsenhor fez com que os
políticos sentissem um pouco do que passavam os sertanejos, conforme bem
relata o jornalista Rubens Lemos Filho em artigo datado de 06/11/12, quando um
dos integrantes da mesa das autoridades pediu um copo de água gelada e ele
respondeu, firmemente: “Aqui ninguém bebe água. Os senhores estão
passando pelo que o povo do sertão passa o ano inteiro. Que fiquem com sede,
para que brote no coração de vocês a sensibilidade e a solidariedade para com
os seus irmãos.”
Como consequência das discussões realizadas nestas audiências, foi publicada no
Diário Oficial do Rio Grande do Norte do dia 19 de julho de 1997 a lei estadual
7.029/97, que instituía a Adutora Agreste/Trairi/Potengi, dispondo para esta,
em seu artigo 1º, o nome de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros. Suas águas,
nos dias atuais, banham pelo menos 30 municípios e 271 comunidades .
Assim como Moisés, que guiou seu povo até a “Terra Prometida”, mas
não viveu suas benesses, o pároco de São Paulo do Potengi não teve muito
tempo para vivenciar a vinda da água doce, tendo falecido em 16 de Janeiro de
2000, há 16 anos.
Mas ele não precisava vivenciar a água doce. Não era por si que lutava, mas
pelo seu povo. Lutara o bom combate do sacerdócio. Sua profecia estava cumprida;
sua promessa, efetivada. Foi-se tranquilo para o lado de Deus, consoante
escreve no final do último capítulo de “Pelos Caminho do Potengi”,
intitulado “Doente de querer bem”: “Quando Deus me chamar,
partirei mais maneiro do que quando aqui cheguei; irei ‘escoteiro’, como dizem
os tropeiros, sem nenhuma preocupação material. A Jesus sejam dadas toda honra
e toda glória. Amém.” [Pág.
52]

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