A morte do leão Cecil, o neopaganismo e a decadência moral do ocidente

Homem coleta água em lugar sem tratamento em Harare, capital do Zimbábue
Homem coleta água em lugar sem tratamento, no Zimbábue

Por Silvério Filho

Por Silvério Filho

Um fato comoveu todo o mundo nesta última semana: o assassinato do
leão Cecil. O animal vivia sob proteção do Parque
Nacional de Hwange
, no Zimbábue, onde era monitorado por pesquisadores.
Cecil, que além de ser muito querido pela população do país, era considerado um
dos símbolos nacionais [1], foi assassinado pelo americano Walter Palmer, após ser atraído para fora do parque,
onde a caça era proibida.

O ocorrido teve repercussão negativa mundial, ao ponto de a
revista Veja se referir ao americano como sendo um dos homens mais odiados do
mundo. [2] Tamanha repercussão, porém, é idiota. Desculpem-me a franqueza.
Explicarei.

A atitude do americano é reprovável, pois matou um animal que,
além de ser objeto de pesquisas científicas, era protegido legalmente. Neste
sentido, portanto, a reprovação deve cair sobre o fato de ele ter burlado a
lei, e não sobre o fato de ele ter matado o animal. Não é o que vemos na
internet e nos demais meios de comunicação. O ódio ao Walter Palmer e a
perseguição à sua pessoa têm sido fruto não da desobediência à lei, mas sim da
morte do animal. Persegue-se um ser humano em sua própria casa, ameaçando-o,
por este motivo, apenas . [3]

Esta inversão de valores salta aos olhos de qualquer pessoa de
bom-senso. Os meios de comunicação, em sua maioria, contudo, parecem se
preocupar mais com veiculação rápida de uma informação, do que dar atenção à
necessidade de se fazer uma crítica minimamente sensata do ocorrido. Foi assim
que conseguiu comover o mundo pela morte de um leão, desconsiderando que, no
mesmo país onde morreu o animal, morrem pessoas aos milhares na miséria,
governados há décadas por um ditador, criminoso, corrupto e que vive na
riqueza, enquanto a população morre de fome. O nome do indivíduo Robert
Mugabe (que inclusive já recebeu cerca de 250 milhões de reais do BNDES [4]).
Mas a mídia preferiu enfatizar à morte de Cecil, em desprestígio do gigantesco sofrimento
do povo do Zimbábue.

Isso é muito bem refletido pela indignação de uma moradora do país
com a situação, conforme relatado pelo site Uol: ” (…)Tem tantos problemas mais urgentes no Zimbábue,
passamos por falta de água, não temos eletricidade, nem emprego… e as pessoas
fazem esse barulho todo por um leão?”. Ou outro que ainda diz: “Um
defensor da democracia, Itai Dzamara, desapareceu há mais de quatro meses, mas
isso não desperta o mesmo alvoroço internacional” [5]

Por trás dessa inversão de valores feita pela
maioria da imprensa está uma concepção ética pagã: dá-se ao homem a mesma
dignidade que se dá a um animal. O que não é correto. Ora, se é verdade que o
homem não pode ter uma postura destruidora em face da natureza, pois esta
também é criação de Deus, é bem verdade também que sua dignidade não pode ser
comparada a de um animal, já que só o homem foi feito “a imagem e
semelhança” do Criador. Assim, haveria uma hierarquia: Deus exerce
soberania sobre o homem, que exerce soberania sobre a natureza, nos moldes
permitidos por Deus. O problema é que o ocidente está tirando,
irresponsavelmente, Deus, Aquele que tudo criou e tudo sustenta, da equação.

Ao fazer isso, perdemos o norte moral. Não existe
certo nem errado. Tudo é relativo. Pode-se sustentar, tanto que a criação pode
ser destruída irrestritamente, pois o homem é dono da criação (o que não é verdade), quanto
que a criação tem a mesma dignidade do ser humano, já que não existe Deus que o
fez à sua imagem e semelhança. Abre-se a porta (ou melhor, escancara-se) para o
neopaganismo, para a decadência moral da civilização que foi construída pautada
na moralidade e na cultura judaico-cristã. E a repercussão dada ao assassinato
de Cecil é um sintoma disto: homens, mulheres e crianças sofrem despercebidamente,
enquanto o assassinato de um animal é hipervalorizado. 

Calha bem neste momento uma frase do escritor
inglês G.K. Chesterton “quando os homens deixam de acreditar em
Deus, não significa que eles passam a acreditar em nada; eles passam a
acreditar em qualquer coisa”
. Abre-se a possibilidade de
se chegar ao extremo de Hitler, que matava pessoas inocentes de modo impiedoso,
ao passo que não podia suportar a tortura de um animal. [6]

É por essas e outras que não se deve confiar em
quem se preocupa mais com bicho do que com gente. 

[1] http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/a-terrivel-historia-do-leao-cecil-morto

[2] http://veja.abril.com.br/noticia/mundo/cacador-de-cecil-de-dentista-anonimo-a-um-dos-homens-mais-odiados-do-planeta/

[3] http://g1.globo.com/natureza/noticia/2015/07/eua-abrem-inquerito-sobre-morte-do-leao-cecil-no-zimbabue.html

[4] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2013/09/1345489-brasil-libera-credito-a-ditador-do-zimbabue.shtml

[5] http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/le-monde/2015/08/05/atingidos-pela-pobreza-zimbabuanos-estranham-comocao-mundial-com-morte-de-leao.htm

[6] https://padrepauloricardo.org/episodios/padres-podem-cacar

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