
“A minha indignação não tem cores que a representem.
A minha revolta não será simbolizada pelas cores de uma bandeira a meio-mastro hasteada, seja ela branca, tricolor,tampouco multicolorida, em verde, amarelo, azul e branco, quer tenha estrelas ou apenas listas.
A minha estrela é incolor. Mas tem sabor. É salgada. Tem o gosto das lágrimas dos familiares das vítimas.
Das vítimas da crise política fazendo combalir a economia e seus empregos perdidos. Das vítimas de corredores de hospitais, moribundos condenados à morte lenta e penosa sob a negligência dos príncipes mal intencionados.
Das vítimas do trânsito mal gerido, mortas no asfalto esburacado e quente, corpos cobertos com o plástico da displicência nacional. Das vítimas da violência armada das ruas, agora adentrando os nossos lares, do sangue inocente derramado por brutos.
Quais são as cores do Nordeste? Quero usá-las. Pelos sacrificados do descaso histórico com o nosso povo, vítima secular e do desleixo dos mesmos príncipes mal intencionados. Eu grito: Quero as cores da bandeira nordestina!
Quero representar a indignação pelo descaso contra o meu semelhante. Quais são as cores da jenuína humilhação?
O meu retrato é incolor. Porém, não menos envergonhado. O meu retrato tem as cores das minhas lágrimas”.
Do blog: Jesus do Miúdo é escritor e poeta de Acari/RN. Texto publicado na coluna do jornalista Woden Madruga, na Tribuna do Norte, edição desta quarta-feira, 25 de novembro.
